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Cabo Verde escolheu o equilíbrio de poderes com Jorge Carlos Fonseca
22 de Agosto de 2011, 03:45
Jorge Carlos Fonseca elegeu-se, este domingo, 21 de Agosto, o quarto presidente da República com mais 35 mil votos do que na primeira volta, tornando-se o primeiro cabo-verdiano a quebrar o ciclo: um presidente, uma maioria, um governo.
Os eleitores cabo-verdianos não “compraram” o pedido de transferência dos votos de Aristides Lima para a candidatura de Manuel Inocêncio Sousa feito pelo PAICV e seu presidente, José Maria Neves, tendo a grande maioria dos votantes, no sufrágio de hoje, preferido Jorge Carlos Fonseca para ser o quarto presidente da República de Cabo Verde.
Este resultado vem, mais uma vez, confirmar o que os analistas tinham dito na noite eleitoral da primeira volta, a 7 de Agosto, ou seja, que as eleições presidenciais 2011 foram um embate entre o PAICV (no poder), que apoiava Manuel Inocêncio Sousa, e o MpD (oposição) que apoiou o novo inquilino do Palácio do Platô.
Com uma clara “derrota” para o primeiro-ministro, José Maria Neves, defendeu o ex-presidente do Supremo Tribunal da Justiça, Óscar Gomes, ao lembrar o grande envolvimento, na primeira volta mais do que na segunda, tanto do líder do PAICV como do presidente do MpD, Carlos Veiga.
O sociólogo Nadir Sousa reconheceu, nos resultados desta noite eleitoral, o peso determinante da sociedade cabo-verdiana em não ir atrás do que o partido decide. Mas o partido ganha, explicou, realçando que a situação é propícia para se repensar a liderança, até porque fez um trabalho “excelente” nos últimos 10 anos.
Aliás, o que esteve em causa não foi o percurso do homem, mas sim uma opção estratégica e o desafio de José Maria Neves é resgatar a união da família PAICV e criar as condições para o Governo efectivamente governar, justificou o sociólogo.
O que se passou, no entender de Óscar Gomes, é que o PAICV, no seu todo, não aceitou Manuel Inocêncio Sousa como candidato do partido. Apesar disso, tem plena convicção que o partido da estrela negra tem plena capacidade e muito boas cabeças para “dar a volta a isso tudo”, porque continua no poder e o Governo continua a ter plena legitimidade.
Ao reconhecer a forte influência dos partidos políticos nas eleições presidenciais, o professor José Maria Semedo também corroborou a tese de que José Maria Neves é um grande derrotado destas presidenciais 2011, porquanto perdeu o candidato do PAICV.
Ele é o único líder que ganhou três eleições consecutivas em Cabo Verde, destacou o professor, admitindo, contudo, que, nestas presidenciais, tinha pesos “pesados”, sobretudo na sua bancada parlamentar, que apoiaram Aristides Lima numa clara oposição à decisão do Conselho Nacional que quis Manuel Inocêncio na presidência da República.
No que se refere ao MpD, também colhe os louros da vitória de Jorge Carlos Fonseca. Primeiro porque, precisou Nadir Sousa, como independente precisava do MpD para que as bases fizessem o trabalho de divulgar a mensagem do equilíbrio do poder.
Acredita, também, que o MpD conseguiu passar a mensagem de descontentamento da população em relação ao candidato que o PAICV apoiou para a corrida ao Palácio do Platô.
E não lhe valeram as declarações de apoio de eminentes apoiantes de Aristides Lima a Manuel Inocêncio Sousa nos últimos dias da segunda volta, provavelmente porque as pessoas “não tiveram tempo” de processar a mudança em apenas 15 dias, salientou o sociólogo.
Poderá ter sido muito à última hora, indicou Óscar Gomes, na convicção de que o povo não terá entendido muito bem isso. O exemplo do Fogo, onde Jorge Carlos Fonseca terá melhorado na votação deste domingo, apesar dos apoios de Sidónio Monteiro e Júlio Correia a Manuel Inocêncio, pode confirmar esse facto, disse.
E, assim, o MpD ganhou ao fazer eleger Jorge Carlos Fonseca, como era a sua estratégia, argumentou José Maria Semedo, ciente de que esta primeira experiência em que os três poderes (presidencial, legislativo e executivo) não são da mesma cor anuncia uma nova etapa na vida política do país.
O certo é que o MpD vai ganhar uma força nova que deverá capitalizar, sobretudo para se preparar para as autárquicas de 2011. Espera-se que Jorge Carlos Fonseca honre o compromisso de ser um presidente junto das pessoas e um congregador dos cabo-verdianos dentro e fora do país.
Com uma relação institucional com os diferentes órgãos de soberania como manda a Constituição da República, cuja génese leva também a assinatura do homem que vai ser o sucessor de Pedro Pires. O povo assim decidiu.